Escolhas de Veículos Ambientalmente Amigáveis
Por Aloisio S. Nascimento Filho , Professor e Pesquisador do SENAI CIMATEC Não há mais dúvidas sobre a necessidade urgente de transformações em nossa matriz energética. Estamos em um ponto de inflexão, com esforços cada vez maiores para reduzir o uso de combustíveis fósseis nas atividades econômicas, especialmente no setor de transportes. Em cidades densamente […]
Por Aloisio S. Nascimento Filho , Professor e Pesquisador do SENAI CIMATEC
Não há mais dúvidas sobre a necessidade urgente de transformações em nossa matriz energética. Estamos em um ponto de inflexão, com esforços cada vez maiores para reduzir o uso de combustíveis fósseis nas atividades econômicas, especialmente no setor de transportes. Em cidades densamente povoadas, a qualidade do ar se tornou uma questão prioritária, pois influencia diretamente a saúde das pessoas e o equilíbrio do nosso meio ambiente. Nos países em desenvolvimento, iniciativas como a adoção de veículos com menores emissões de poluentes despontam como alternativas promissoras, capazes de tornar nossos centros urbanos mais saudáveis e sustentáveis. É encorajador observar que progressos já estão sendo feitos, com a crescente popularização de tecnologias como motores híbridos e veículos elétricos, traçando um caminho para um futuro mais sustentável.
Nesse contexto, os veículos elétricos emergem como uma solução inovadora e promissora para enfrentar os desafios ambientais nas áreas urbanas. Contudo, a sua ampla adoção ainda esbarra em barreiras significativas. O custo elevado torna esses veículos inacessíveis para a maioria das pessoas no curto prazo, limitando sua difusão. Além disso, a infraestrutura de recarga permanece insuficiente, especialmente em regiões onde o transporte público é precário. Outro ponto crítico à vista é a necessidade de formação de profissionais qualificados para a manutenção e reparos desses veículos, garantindo que suas inovações sejam sustentadas ao longo do tempo. Por fim, persiste um debate importante sobre a verdadeira sustentabilidade desses veículos, à medida que consideramos o ciclo de vida das baterias e a dependência de fontes de energia que nem sempre são renováveis. Essa trajetória, repleta de desafios e oportunidades, demanda atenção e ação coordenada.
Ao analisar a complexidade e os desafios do setor de transportes sustentáveis, nosso grupo de pesquisa, composto por especialistas de diferentes áreas e instituições, discutiu estratégias para promover uma transição eficaz enquanto a eletrificação avança e a indústria automotiva se adapta. Identificamos que o engajamento dos consumidores é essencial para incentivar escolhas mais conscientes em relação aos modelos de veículos, já que a adoção de veículos de baixa emissão pode oferecer uma resposta rápida à poluição atmosférica. Além disso, o fortalecimento do uso de biocombustíveis, como etanol e biodiesel, coloca o Brasil na dianteira da redução de emissões de origem fóssil, criando uma vantagem competitiva valiosa nesse cenário em transformação. Nesse contexto, essas ações são passos práticos para equilibrar os desafios atuais com as exigências tecnológicas do futuro.
Um dos primeiros insights em nossa investigação foi a ideia de “não reinventar a roda”, uma vez que já temos uma ampla gama de dados abertos disponíveis. O selo CONPET, que pode ser encontrado em eletrodomésticos e veículos, serve como ponto de partida, fornecendo informações sobre produtos industrializados no Brasil. No entanto, este selo tem limitações e pode ser confuso em algumas situações. Assim, utilizando dados secundários de fontes como o Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE), que oferece informações sobre emissões e consumo energético de veículos certificados no Brasil, buscamos soluções que equilibrem menor impacto ambiental com as preferências dos consumidores. Outra estratégia foi aproveitar informações já conhecidas tornando o processo mais atraente, destacando o papel do consumidor como ponto focal de transformação e contribuindo ativamente para a redução das emissões nas áreas urbanas. Além dos dados do PBE, nossa pesquisa também incorpora informações da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (FENABRAVE), permitindo comparar os veículos mais vendidos no Brasil em 2019 e avaliar como as preferências dos consumidores se alinham com soluções mais sustentáveis.
O objetivo da investigação foi combinar diferentes variáveis de desempenho de veículos para avaliar suas emissões e eficiência energética, utilizando dados do Programa Brasileiro de Etiquetagem (PBE). O PBE registra as emissões de poluentes como hidrocarbonetos não metânicos (NMHC), dióxido de carbono (CO₂), monóxido de carbono (CO) e óxidos de nitrogênio (NOₓ) para cada modelo de veículo. Além disso, mede o consumo de energia em mega joules por quilômetro (MJ/km), classifica os veículos em categorias como micro compacto, subcompacto, entre outras, e detalha características do motor e sistema de transmissão. Para integrar esses dados e tomar decisões informadas sobre a escolha de veículos mais sustentáveis, utilizamos o Método de Processamento Hierárquico Analítico (AHP). O método é uma técnica estruturada que auxilia na tomada de decisões complexas, organizando e priorizando critérios através de uma hierarquia, com algumas adaptações, permitindo considerar múltiplos fatores simultaneamente para selecionar a melhor opção. No nosso caso, uma lista de veículos ambientalmente amigáveis.
Realizamos diversas simulações com dados do ano 2019, anterior à pandemia de COVID-19, com a aplicação do método AHP, que geraram listas de veículos ambientalmente amigáveis e alinhados às preferências dos consumidores. Essas listas foram comparadas com os 20 veículos mais vendidos no Brasil em 2019, com base em dados da FENABRAVE. A análise, centrada nas emissões de poluentes e nas preferências parametrizáveis dos consumidores, revelou que os veículos da lista AHP apresentaram emissões acumuladas significativamente menores do que os modelos mais vendidos. As emissões de poluentes foram estimadas ao longo de cinco anos, considerando um percurso anual de 10.000 km para cada veículo. As simulações mostraram que os veículos selecionados pelo AHP resultaram em emissões totais muito menores ao longo desse período, em toneladas, enfatizando a importância de optar por veículos de baixa emissão para reduzir seu impacto na saúde e no meio ambiente.
Ficamos impressionados com os resultados e a discrepância observada, além do impacto potencial da falta de informações claras para o público em geral, especialmente em relação à redução das emissões de poluentes. Observamos que a ausência de dados acessíveis e compreensíveis pode dificultar escolhas ambientalmente responsáveis por parte dos consumidores, permitindo que veículos com altas emissões de gases como NMHC, CO₂, CO e NOₓ continuem no mercado brasileiro. Esses poluentes não apenas afetam o meio ambiente, mas também representam um risco direto à saúde humana, o que destaca a necessidade urgente de uma comunicação mais eficaz sobre as emissões dos veículos e suas consequências.
Uma contribuição importante de nossa pesquisa é o desenvolvimento de uma estratégia de transição que reconhece as complexidades do mercado automotivo, ao mesmo tempo em que promove a sustentabilidade de forma prática. Apresentamos uma versão simplificada do método AHP, que torna o processo de decisão mais acessível e útil para profissionais da área e para o público em geral. Nosso objetivo é facilitar a escolha de veículos de baixas emissões, uma solução eficaz para tornar as cidades mais sustentáveis. A pesquisa combina dados técnicos sobre veículos com as preferências dos consumidores, proporcionando uma tomada de decisão sobre um modelo de veículo mais alinhado com as necessidades da sociedade. Além disso, essa abordagem é adaptável e pode ser aplicada a diferentes mercados, ajudando na implementação de políticas que visam reduzir as emissões de poluentes. Acreditamos que nossa proposta oferece uma ferramenta flexível, que pode ser adaptada para diferentes contextos e ampliada para além do Brasil.
A nossa pesquisa possibilita que consumidores façam escolhas mais informadas, contribuindo para uma qualidade de vida superior ao reduzir a poluição do ar. Os impactos dessa mudança são ainda mais abrangentes: a adoção de veículos de baixa emissão não apenas diminui as emissões de gases de efeito estufa, mas também melhora a qualidade do ar, resultando em benefícios significativos para a saúde pública e na redução dos gastos com cuidados médicos. Ademais, ao fomentar o uso de veículos mais sustentáveis, a pesquisa se alinha aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), particularmente ao ODS 11, que busca tornar as cidades e comunidades mais sustentáveis, e ao ODS 9, que incentiva a industrialização e a inovação. O modelo proposto é dinâmico e adaptável, garantindo sua relevância ao longo do tempo, conforme acompanhamos as transformações tecnológicas e as tendências de mercado. Para que esses benefícios se concretizem completamente, é crucial a colaboração entre consumidores, indústria e governo, por meio de políticas públicas que incentivem a inovação e promovam a conscientização sobre a sustentabilidade no setor de transportes.
Ao final de uma pesquisa dessa magnitude, surgem muitas questões e limitações, algumas das quais não conseguimos responder completamente. Por exemplo, sem dúvidas o preço dos veículos é um fator determinante na escolha de compra, especialmente em países com grande disparidade de renda, como o Brasil. Contudo, nossa investigação não considerou o impacto do preço na viabilidade da compra de veículos de baixa emissão. Além disso, a flutuação dos preços dos combustíveis, um problema recorrente no Brasil, pode influenciar as decisões dos consumidores, mas essa variável não foi incorporada à análise. Também não exploramos o impacto dos impostos e incentivos fiscais governamentais, como o programa Rota 2030, que afetam diretamente o mercado automobilístico. O efeito rebote, onde o aumento da eficiência energética pode gerar um uso mais intenso dos veículos, neutralizando os ganhos ambientais, é outro aspecto relevante que não investigamos. A pesquisa ainda se baseou nas informações limitadas do PBE, o que restringe a análise a dados específicos, deixando de fora detalhes técnicos, como tipo de transmissão e powertrain, que poderiam ser abordados em estudos futuros. Finalmente, não consideramos os fatores comportamentais, como percepções sobre sustentabilidade, valores pessoais e influências sociais, que impactam as decisões de compra.
Nosso estudo revela um caminho claro e apresenta soluções práticas e viáveis, permitindo que os consumidores se engajem e façam escolhas com maior consciência ambiental. Cada passo que damos em direção à sustentabilidade—seja por meio da eletrificação dos transportes ou do fortalecimento do uso de biocombustíveis—representa um progresso significativo para todos. Afinal, este planeta é a nossa casa, e juntos podemos construir um futuro mais verde e promissor.Link do artigo original: https://doi.org/10.1016/j.scitotenv.2024.176993